Cavalo arreado

Oportunidade tem sido historicamente associada à expressão popular de um cavalo arreado que passa pela nossa frente. Se montar, pegou a oportunidade. Se não montou, viu a oportunidade ir embora ou outro cavaleiro montá-lo.

O que poucas vezes se faz é aprofundar na avaliação sobre as oportunidades que surgem ao longo da vida. Para início de reflexão, pergunto: todas as oportunidades são verdadeiramente oportunidades de crescimento, de desenvolvimento? Será que, ao contrário, a oportunidade pode me retirar ou retirar a empresa do foco de estratégias já traçadas? Será que essa nova oportunidade é conflitante com aquela que serviu de base para o planejamento original?

Na época de fundação da Gol Linhas Aéreas, li em uma matéria jornalística uma fala do Constantino de Oliveira Júnior, cofundador da Empresa, da qual não me esqueci. Segundo a matéria, o executivo, de forma muito feliz, disse que um dos grandes desafios é evitar, a todo custo, “uma estratégia que varia ao sabor das tentações do mercado”. Naquela ocasião, fiquei muito intrigado com essa afirmativa. Afinal, o que estaria na essência da fala do Constantino?

Como professor, consultor e gestor sempre fui adepto do planejamento estratégico em seus diversos métodos e técnicas. Todas essas técnicas de planejar levam o gestor, quando da análise do ambiente externo da empresa, a mapear oportunidades e ameaças. Por óbvio, essas técnicas também levam à reflexão sobre as potencialidades e os impactos das oportunidades nos negócios e de seus alinhamentos com a missão e a visão de futuro da empresa. Durante essas análises, é levado em consideração as forças e as fragilidades da empresa para aproveitar essas oportunidades ou para contrapor as ameaças. A partir de toda essa análise são construídas as estratégias do negócio.

Mesmo assim, voltando à afirmativa do executivo da Gol, refletindo muito sobre tudo isso, cheguei a uma conclusão que, acredito, era a essência da sua mensagem. Traçada uma estratégia, definido o posicionamento de negócio de uma empresa, tomando por base todas as recomendações das técnicas de planejamento, os executivos da empresa são periodicamente submetidos a sedutoras oportunidades para lhes tirarem do caminho. A dinâmica da economia, do mercado, é bem assim. Surgem cavalos arreados a todo o momento. Nessa dinâmica dos negócios, faz-se necessário analisar com muito cuidado, com muita profundidade, os impactos das novas oportunidades nos rumos já traçados. Será que é hora de desviar da rota definida anteriormente? A resposta a essa pergunta é, a meu ver, a essência da mensagem do Constantino por ocasião de lançamento da Gol. Hoje, fico a me perguntar: será que o Constantino e os demais executivos da Gol lançaram mão dessa sábia orientação ao longo da trajetória da companhia? Mas essa é outra questão, que somente poderá ser respondida estudando a história da empresa.

O certo é que temos que distinguir os cavalos arreados que passam pela nossa frente. Temos sempre que questionar: esse é um animal forte, marchador, que me levará muito longe? Ou será esse animal um pangaré que não me levará muito longe ou a lugar algum? Ou ainda: será esse um cavalo de rodeio, selvagem, que me jogará ao chão tão logo eu monte? Temos sempre que fazer também uma autoavaliação, ou seja, se, como cavaleiros, estamos preparados para montar naquele animal. Isso porque não adianta o cavalo ser interessante e nós não estarmos aptos a montá-lo. Como já disse aqui, nas empresas essa avaliação se dá com o mapeamento de forças e fraquezas. Se não tivermos força suficiente (capacidade como cavaleiro, em nossa simbologia nessa reflexão) é melhor não montar no cavalo arreado ou, se der tempo, corrigir essa fragilidade antes de fazê-lo. Essa é uma análise de risco que deve sempre entrar no jogo da avaliação da oportunidade.

Assim, antes de se atrever a montar no cavalo arreado da oportunidade, estude muito bem esse animal e veja até que ponto ele está alinhado com a viagem que você pretende e está capacitado a fazer.

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Carlos Portela – (31)98649.6807