Inovação e o Olimpo

Existe uma verdade absoluta na cabeça de um grande número de empreendedores, de que descobrir e lançar um produto ou serviço completamente inovador, inédito, os levará ao Olimpo. Olimpo, nesse caso, significa galgar o posto mais alto no ranking de empresas do setor e lá permanecer eternamente.

No livro “Ação e Visão: Como vencer os que chegaram primeiro. Como dominar mercados de forma duradoura”, de Gerard J. Tellis e Peter N. Golder, os autores desenvolvem uma profunda reflexão sobre o tema, como o próprio subtítulo do livro indica. A reflexão dos dois é baseada em uma pesquisa que realizaram e que tomou por base inicial exatamente essa aparente verdade absoluta. Estudaram empresas como Kodak, Xerox, Apple, dentre outras que foram objeto do trabalho, à medida em que a pesquisa avançou. A conclusão a que Tellis e Golder chegaram foi muito diferente do princípio que motivou e norteou a pesquisa. Primeiro, concluíram que essas empresas não foram as pioneiras em seus produtos e serviços. Os produtos e serviços já existiam, mas não tinham sido lançados em uma escala maior no mercado.

Mas esse não é o ponto central da conclusão a que chegaram os dois pesquisadores. O mais importante do resultado da pesquisa é que concluíram que o sucesso duradouro dessas corporações estava localizado em outro aspecto, acredito, muito pouco percebido pelas empresas, por empresários e executivos. O principal fator que levou essas empresas ao topo do ranking e a lá permanecerem não era, nem mesmo, a estratégia em si. A estratégia, por óbvio, é importante componente do sucesso, da competitividade, da perenidade das organizações; isso não pode ser esquecido. Mas voltando ao ponto central de nossa reflexão, o que as colocava nesse patamar foi um singular modelo de gestão, de condução dos negócios; modelo esse que as diferenciava de todas as demais empresas do setor. E o mais importante nessa compreensão: copia-se produtos, copia-se processos produtivos, copia-se serviços. Entretanto, foi a conclusão de Tellis e Golder, dificilmente pode ser reproduzido um modelo de gestão singular, que tem como componente uma também singular cultura interna. Cultura não se copia, cultura se desenvolve. E o desenvolvimento de uma cultura leva tempo, exige persistência, demanda um elevado grau de resiliência, para ficar apenas no básico deste raciocínio.

Neste ponto de nossa reflexão é importante abrir um parêntese: Inovar é fundamental para a competitividade, para a sustentabilidade de qualquer negócio. O modelo singular de gestão do qual nos referimos é inovação. Mas inovar não pode ser restrito ao inédito. Inovação é, também, o desenvolvimento, a melhoria de processos, a modernização da empresa. Se a empresa não consegue processos de inovação disruptivos, que sejam inovadoras de forma incremental. E não é ser inovador apenas no produto ou serviço; na estratégia. Pense em ser inovador, mesmo que de maneira incremental, no modelo de gestão, de operação do negócio. Com o tempo, isso se arraigará de tal forma à cultura da empresa, que os concorrentes terão muito trabalho para copiá-la.

A mensagem que gostaria de levar para empreendedores e executivos é para pensarem profundamente no modelo de gestão de suas empresas, incluindo a sua cultura, e traçarem rumos planejados para inovar também esse modelo.

Muito importante: essa reflexão não é valida apenas para empresas como as que foram citadas aqui e para aquelas que Tellis e Golder centraram no início de seus trabalhos. Essa reflexão é válida para qualquer empreendimento, de qualquer setor ou porte. Para ter certeza disso, pare e pense no mercado de um modo geral. Pense na loja de materiais de construção, no restaurante, na lavanderia, no supermercado de seu bairro ou de fora dele. Tente identificar as empresas de porte médio e até de pequeno porte que estão tendo sucesso. Todas elas são como Google, Facebook, Apple, Uber e cia.? Não, absolutamente não são. As empresas citadas são uma exceção no universo empresarial. A grande maioria das empresas de sucesso são ilustres desconhecidas desses rankings de melhores e maiores que existem por aí, daquelas que aparecem constantemente nas capas das revistas de negócio. Mas nem por isso podemos afirmar que não têm sucesso, que não têm rentabilidade, que não têm perenidade. Ah! Mas um detalhe: todas elas, de alguma forma, são inovadoras.

Portanto, relativizado o conceito de inovação, que não se restringe às grandes inovações disruptivas, pense nas palavras de Philip Kotler, um dos maiores pensadores do marketing mundial: “Se você inovar frequentemente terá muitos fracassos, mas se você não inovar, sairá do mapa. Então, você não tem escolha”.

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Carlos Portela (31)98649.6807

Educação e estratégia

Muito se fala sobre a importância da educação, da qualificação dos profissionais no mundo corporativo. Isso é senso comum. Existe, entretanto, um distanciamento entre esse senso e o que realmente se aplica nas organizações.

Quando o alinhamento é entre educação e estratégia, o que se percebe é que o distanciamento se torna abissal. E é justamente aí que reside um gravíssimo problema, que merece toda nossa atenção.

A estratégia precisa, primeiramente, ser concebida, formulada. Na sequência, precisa ser viabilizada e implantada, caso contrário, ficará apenas na retórica. Isso também não é novidade.

Em meio ao cipoal que envolve a economia, o mercado, os negócios, enxergar o melhor caminho não é tarefa fácil, não é para qualquer um. Somente pessoas muito bem preparadas podem fazer isso de forma assertiva. Quanto à materialização da estratégia, que deverá ser, obviamente, desdobrada em um conjunto de ações, também a presença de profissionais à altura dos desafios se faz fundamental.

Equipe despreparada, desqualificada significará cegueira na primeira grande dimensão – concepção da estratégia – e paralisia, falta de engajamento, dentre outros farão com que a segunda dimensão – implantação – simplesmente não aconteça ou não aconteça na intensidade necessária para viabilizar a estratégia em sua plenitude.

Recapitulando, o problema central, o pano de fundo do qual deriva todos os grandes problemas no campo da estratégia se resume a gente, gente e gente.

Nesse contexto, somente um “instrumento” pode derrubar essas muralhas, essas aparentes intransponíveis barreiras, que pode ser traduzido por educação.

Para ilustrar esse raciocínio vamos, primeiramente, no que tange à concepção da estratégia, pensar, mas pensar muito bem, no que disse Pablo Picasso: “Há pessoas que transformam o sol em uma pequena mancha amarela. Porém, há também as que fazem de uma simples mancha amarela o próprio sol.“. Complementando esse raciocínio, e conectando-o com a importância e o real papel da educação, o sábio filósofo alemão Nietzsche, que viveu no século XIX, disse que “é justamente ensinar a ver, a primeira missão da educação”.

Quanto à segunda dimensão da estratégia, a da implantação, o educador Paulo Freire pode ser uma referência quando disse que a “Educação não transforma o mundo. Educação transforma as pessoas. Pessoas transformam o mundo”. Se substituirmos a palavra mundo por empresa (e olha que a segunda é um grão de areia perto da primeira) poderemos ter ideia do real impacto do ensinamento do nobre educador.

Para fechar essa nossa reflexão, caro leitor, guarde bem a recomendação do gaúcho, filósofo e crítico de arte, Gerd Bornheim que afirmou categoricamente que “toda teoria sem ação é vazia e toda ação sem teoria é cega”.

Portanto, vamos a um conselho para presidentes, executivos e gestores: quanto à equipe e, com todo respeito, quanto a você próprio, não esqueça que uma boa dose de educação nunca é demais, ou melhor, somente uma boa dose de educação, em seu entendimento mais amplo, da educação corporativa à educação formal, fará toda a diferença para que a estratégia de sua empresa saia do campo das intenções. E lembre-se, pode caprichar na dose, pois educação não provoca efeito colateral por superdosagem.

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